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O lado positivo da crise - 2/12/2008

Como toda crise, o tsunami financeiro que teve início nos Estados Unidos, alastrando-se por todo o globo nas últimas semanas, traz oportunidades. Para o consultor portuário Marcos Vendramini, esta é a chance de o Brasil ampliar sua infra-estrutura de transportes, que caminhava para um "apagão".

É o momento de preparar portos, estradas e ferrovias para a recuperação do comércio internacional, esperada para o próximo ano. Apesar do desaquecimento da economia, o engenheiro de produção, com experiência no planejamento e na implantação de empreendimentos portuários em todo o País, lembra a lição do bilionário norte-americano Warren Buffett e defende que esta, mais do que nunca, é a hora de investir.

Quais devem ser os impactos da crise no setor portuário? A falta de crédito ameaça os empreendimentos em estudo e aqueles já iniciados?
Eu não vejo tudo isso que está ocorrendo como uma crise, mas como um slowdown no nosso ritmo, o que nos apresenta uma grande oportunidade. De 2002 a 2007, o PIB brasileiro cresceu 31,2%, a movimentação mundial de contêineres, 69,1%. O movimento portuário nacional aumentou em quase 43% ou 7,4% ao ano. Em Santos, chegou a 51,1% ( no período). Só as operações de contêineres no Brasil foram ampliadas em 87%. São 13,4% ao ano. E em Santos, esse índice chegou a 106,9%. Isso é uma tremenda velocidade. Isso é termos, todo o ano, um crescimento de 15,6%. Você conseguir prover infra-estrutura para essas taxas de crescimento anual é um negócio quase insano. O País não consegue aumentar sua infra-estrutura a 13% e nem a 7% ao ano, principalmente quando você sai do zero. E você ainda tem restrição orçamentária, legislação. Essa diferença de velocidade do crescimento econômico e da disponibilidade de infra-estrutura para o escoamento de bens é o nosso gargalo, é o que origina o risco do apagão logístico. E é nesse cenário que aparecem os problemas na economia norte-americana e eles se alastram pelo mundo. E essa segurada econômica nos ajudará. A crise tem um lado positivo.

Qual é o lado positivo?
Imagine a figura de um ônibus que sai vazio do ponto e tem um monte de pessoas correndo atrás para pegá-lo. Esse ônibus é a economia brasileira e os passageiros são os nossos projetos de infra-estrutura. O ônibus segue devagar, mas, mesmo assim, ninguém consegue acompanhá-lo. E eles estão correndo. De repente, você tem um engarrafamento lá na frente e o ônibus diminui a velocidade. E a turma consegue chegar na porta e começa a entrar. Não significa que todos vão conseguir. Quando o engarrafamento acabar, aí você conseguirá ver quem ficou na janela do ônibus, quem está de pé e quem permaneceu de fora. A crise tem um lado positivo. É a chance de o Brasil conseguir se adequar, prover a infraestrutura necessária para escoar sua produção, desenvolver sua economia. O que não pode é parar de investir. Parar os investimentos é burrice. É a história do Warren Buffett. Ele investe, é ousado quando os outros estão com receio e tem receio quando os outros são ousados. É claro que vamos precisar de infra-estrutura. Pode não ser hoje, mas daqui a três, quatro anos. Estamos falando de projetos que tem um tempo de maturidade muito grande. Não se faz um terminal em um ano. Esses são empreendimentos que levam quatro, cinco anos para serem entregues. Há de se aproveitar esse período para desenvolver tudo isso, ainda que com crise. Só assim, na hora em que o ônibus voltar a andar, todo mundo vai estar dentro.

Quando esse ônibus voltará a andar?
Em meados de 2009 ou em 2010 já vamos começar a fase de crescimento. Nesse período, as economias emergentes vão sofrer o impacto, mas menos do que sofreriam há alguns anos. O Brasil exporta muitas commodities, tanto minerais quanto agrícolas. Seus principais consumidores são os Estados Unidos e a China. Os Estados Unidos vão reduzir suas compras, mas a China, mesmo com um slowdown, vai ter um crescimento de seu PIB de 9% ao ano. Aqueles milhões de chineses que começaram a comprar não vão parar. Quando você tem um problema, uma crise, a primeira coisa que você corta é o bem de consumo durável, eletrodomésticos, carros. Isso é ferro, níquel, aço, alumínio. São produtos químicos. Esses podem sofrer o primeiro impacto. Mas os reflexos serão menores com as commodities agrícolas. A Vale ( maior exportadora de minério de ferro do mundo) vai sofrer antes do que a Bunge ( uma das principais exportadoras de granéis agrícolas do mercado), por exemplo. É um slowdown, não é um stop.

O quão próximo o Brasil estava de um apagão logístico?
O Porto de Santos trabalha com 85% de sua capacidade este ano. Crescendo dessa forma, a única esperança era ter um aumento de produtividade dos terminais. Instalações novas demoram. O próximo empreendimento que vai aliviar Santos fisicamente é a Embraport. E ela vai entrar em operação quando? Em 2015? 2014? Até lá você vai se virar como? Do jeito que estávamos indo, eu acho que teríamos dificuldades em 2011, 2012.

E quais seriam as dificuldades?
Eu não diria uma fuga de cargas. Mas haveria mais engarrafamentos, mais demoras para embarcar. Os importadores e exportadores começariam a perder dinheiro com o aumento dos custos logísticos. E haveria uma maior necessidade de se migrar para outros modais, especialmente as ferrovias.

Que investimentos devem ter prioridade agora?
Temos de melhorar a infra-estrutura, com melhores acessos e dragagem. Quanto aos terminais, há a Brasil Terminais Portuários e a Embraport. São instalações que vão movimentar vários tipos de carga, mas a longo prazo vão se concentrar nas operações de contêiner, que é a grande vocação de Santos. Mas, estratégico mesmo para a Região Metropolitana da Baixada Santista é a elevação das pontes.

Quais pontes?
A ponte ferroviária do Jardim Casqueiro, a da Via Anchieta e a da Rodovia dos Imigrantes. Subindo essas três pontes, de modo a permitir o tráfego de barcaças por baixo delas, você valorizaria toda aquela região da Área Continental de São Vicente. Onde hoje há favelas, degradando o meio ambiente, você poderia ter novos terminais. Seria a criação de novas zonas portuárias e retroportuárias na região.

Qual deve ser o papel do Governo nesse período?
Ele terá uma menor pressão e vai poder se dedicar com mais calma aos projetos de infra-estrutura. Ao invés de tratar de dez assuntos ao mesmo tempo, como ele estava tendo de fazer, vai tratar de cinco ou seis relevantes. Mas o Governo terá de dar definições mais rapidamente. Calma não significa vagarosidade.

fonte: A Tribuna

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